VERA FIGUEIREDO & CONVIDADOS
Baratos Afins - 1990

 
   

A perfeição não é impossível de ser alcançada. Nem representa o estágio máximo do desenvolvimento de um talento. Pelo menos no caso de Vera Figueiredo - exemplo admirável, ainda que realmente raro, de músico que alcançou há muito uma perfeição técnica incontestável, e mesmo assim (ou por isso mesmo) continua seu processo evolutivo. Exatamente como Phill Woods, Keith Jarret, Sonny Rollins e Eddie Gomez. Neste sentido, a maturidade artística só faz reforçar os fundamentos de uma concepção própria. Algo que, por sua vez, tem permitido à Vera um aprimoramento estilístico incessante. 

Em vários aspectos, o vigor criativo de Vera Figueiredo pode ser comparado, sem o reducionismo simplista comum a este tipo de raciocínio, ao de S.Gadd. Um dos mestres a quem ela dedica este disco (o outro é revolucionário patrício Airto Moreira), Steve, assim como Vera, conseguiu a proeza de elaborar uma arte interpretativa inconfundível. As "coincidências", porém, não param aí. Ambos não conhecem limitações no domínio do instrumento, possuem uma sonoridade clean apuradíssima, estão livres de preconceitos tradicionalistas e, por fim, revelam uma versatilidade - hoje em dia tão confundida com indefinição estilística impressionante. 

Nada disso significa, entretanto, que Vera procure imitar Steve Gadd ou qualquer outro ídolo. Muito ao contrário. Apenas tratou de elaborar sua personalidade artística usando como referencial, simplesmente um dos melhores bateristas da face da terra. À esta inspiração, somou uma série de características pessoais, adicionou o tempero brasileiro, e a partir daí deu início a uma trajetória brilhante, jamais permitindo que seu virtuosismo derrapasse para o exibicionismo inconsequente. 

Estrela de brilho próprio, verdadeira supernova no nosso cenário musical contemporâneo, Vera Figueiredo estudou, de 75 a 77, com Rubens Barsotti, baterista do Zimbo Trio, no famoso CLAM, em São Paulo. A mesma escola frequenta da por Eliane Elias, pianista com quem Vera logo depois viria a tocar, formando os grupos Talismã e Bonzo. Em 80, passou em primeiro lugar em um concurso para a Orquestra Juvenil do Estado de São Paulo, nela permanecendo por dois anos, atuando em diversos concertos sob a regência de John Neschiling.

Simultaneamente, foi pouco a pouco tornando-se conhecida na noite paulista, apresentando-se com expoentes dos mais diversos gêneros. De Clementina de Jesus a Lucho Gatica. De Ritchie a Toninho Horta, passando por Isaurinha Garcia, Maria Creuza, João Donato e Eliete Negreiros. Após temporadas em Portugal e Espanha, fundou no Brasil o grupo Kali, cujo álbum de estreia, em 86, ajudou a projetá-la nacionalmente. Naquele ano, durante show no club Jazzmania, no Rio de Janeiro, Vera deixou o público e a crítica boquiabertos, extasiados com sua performance esplêndida, realçada por carismática presença de palco. Apesar do destaque individual, somente realizou sua primeira apresentação-solo em março/89, no Sesc Pompéia. 

Agora, como consequência natural do êxito das investidas em shows como líder, surge este disco excepcional. Fruto também, segundo palavras da própria Vera, "da vontade de realizar um trabalho em uma nova linha, mais latina, diferente da sonoridade fusion do Kali". Buscando tal objetivo, ela idealizou sozinha todo o repertório e a produção do álbum, evitando ao máximo o recurso de overdubbing, a fim de captar um clima de gravação " ao vivo ". Por isso, uma saudável sensação de espontaneidade - nada a ver com displicência permeia todas as dez faixas. 

Em metade delas, aliás, Vera exercita sua faceta de compositora. A começar pela abertura, Julinho, "dedicada a um amigo que já me deu altas forças". Impulsionada por atraentes evoluções rítmicas, com sucessivas alternâncias de andamento talvez tenha sido a faixa mais difícil de ser gravada. "Já tinha tentado duas vezes, mas nunca ficava satisfeita com os resultados", conta a líder. "Quando estava quase desistindo, resolvi convidar a Silvia Goes para escrever um novo arranjo, e ela acertou em cheio, mudando inclusive a sequência harmônica da introdução". 

Além do arrasador desempenho de Vera, vale destacar, em Julinho, o solo contagiante sincopado de Silvia no piano e as alucinadas marcações de seu marido, o baixista Arismar do Espírito Santos, entortante o tempo inteiro. Próximo ao final, Vera não resiste à tentação de soltar a voz, acrescentando este atrativo extra a uma prova prática de que a fusão de jazz e samba, para soar estimulante, não precisa necessariamente resultar em bossa-nova. 

Contrastando com a "construção bem rítmica, típica da concepção de um baterista", verificada em Julinho, a líder extravasa seu lado romântico em dois temas. O primeiro, Eco, "um bolero que se enquadra na proposta latina", teve seu título inspirado em uma revista especializada em bateria e percussão, editada em Sampa, para qual ela colabora com artigos ou transcrições de partituras. Atacando também no sintetizador DX7, Vera coloca o baixo elétrico de Serginho Oliveira e o Sax tenor de Ed Côrtes na linha de frente, encaixando uma citação de Ribbon in the Sky, de Stevie Wonder. 

O segundo número Araçá, revela-se ainda mais cativante, repleto de lirismo e sutileza compatíveis com sua placidez sonora. Demonstrando seu poder de economia musical, Vera consegue, com poucas notas, criar uma atmosfera mágica, encantadora, "união dos sentimentos de tristeza e esperança". Um retrato da singeleza do amor, adornado pelos teclados de Alex Frontera e pela flauta de Derico Sciotti. Momento de pura emoção, verdadeira aula de como utilizar a noção de espaço na estrutura de uma composição, sucedendo ao Batuque da Casinha do Figão ("fiz para o meu pai, pensando na irritação dele por ter uma filha que ficava o tempo todo batucando em panela") e precedendo ao ritual pecussivo de Rumba Meu Boi "um diálogo improvisado entre Rubinho Chacal e eu, com bastante uso de timbales"). 

Bruce Scott, cantor norte-americano com quem Vera se apresentou, em 88, no club de jazz californiano At My Place, aparece como autor das faixas Jamaica e Tudo Bem."Possuem um clima descontraído, alegre, quase de festa. Nos shows que tenho feito, eu inclusive incentivo o público a dançar, pois este tipo de reação é importante para mim", comenta a baterista. Outro número já obrigatório nos shows e que, portanto, não poderia faltar no disco, Merry Christmas Mr. Lawrence, de Ryulchi Sakamoto, recebe novo tratamento, com Vera aplicando um groove certeiro. 

Completando o álbum, Hermeto Pascoal marca presença em duas faixas "Sempre que o Hermeto me via tocar, fazia altos elogios que me deixavam super feliz, pois sinto por ele uma enorme admiração. Até que, no ano passado, depois de ter me convidado para participar de um disco dele, acabou se oferecendo para gravar no meu álbum. E é lógico que eu não ia deixar passar uma oportunidade dessas", observa a privilegiada. 

Não saciado com a missão de colocar um solo de DX7 na arrojada recriação do baião Paraíba, de Luiz Gonzaga, recheado por citações de Malagueña, Hermeto quis fazer uma música especialmente para a artista. Assim nasceu De Vera, criada na hora da gravação, captada sem ensaio algum, com a voz da homenageada às vezes adivinhando os devaneios do gênio.Comovente reconhecimento do bruxo à alma sonora da baterista. Fecho preciso para esta celebração da arte de viver da música/para a música. Em outras palavras, uma celebração do talento de Vera Figueiredo

 

Arnaldo De Souteiro